O deputado Álvaro Porto (MDB) só pinta e borda hoje como presidente da Assembleia Legislativa porque, no começo desse século, um homem conseguiu sentar-se na cadeira da Presidência e acumular poder em tamanho até então inédito para um presidente da Casa Joaquim Nabuco. Romário Dias é o nome dele.

Foi Romário o responsável por articular e patrocinar uma alteração na Constituição estadual em benefício próprio. A partir dali, passou a ser permitida uma quantidade sem fim de reeleições para a Presidência da Assembleia Legislativa. 

Antes dele, o político só podia ser reconduzido aos cargos da mesa diretora uma vez. Dois biênios. Apenas. Depois de Romário, esse e outros limites foram quebrados na Alepe. 

Romário Dias foi presidente por seis anos consecutivos, quase todo o período do governo de Jarbas Vasconcelos. Fato, até então, inédito.

Depois dele, veio Guilherme Uchôa, hoje falecido, que comandou a Presidência da Casa por cinco biênios. Todo o período da gestão Eduardo Campos e os primeiros dois anos de Paulo Câmara. 

Uma década de um parlamento inteiro sob a presidência de um único deputado! 

Há coisas que a política é capaz de produzir que, antes de pronta, são inimagináveis. E como isso é possível? Pelo alargamento paulatino dos limites. 

Em Pernambuco, Romário Dias foi quase tudo ao longo de cinco décadas de atuação: homem forte do antigo PFL, secretário de Estado, vereador do Recife, deputado estadual, presidente da Alepe, conselheiro do Tribunal de Contas e… deputado, de novo! 

Quando atingiu a aposentadoria compulsória no TCE, ele voltou a ser candidato, algo a que Pernambuco ainda não tinha assistido.

Romário é natural do município de Correntes, no Agreste Pernambucano. O político e empresário estava ausente do noticiário desde 2022, quando encerrou seu último mandato parlamentar. Voltou a ser citado nessa quarta-feira (15).

O motivo é nada pomposo: juntamente com seu filho e também ex-deputado estadual, Romário foi alvo de uma operação policial que investiga possível esquema de desvio de recursos públicos montado nos gabinetes da família Dias na Assembleia. 

Na casa de Leonardo Dias, que ocupou o espaço político do pai na Alepe quando este esteve no TCE-PE, uma equipe da Polícia Civil cumpriu mandado de busca e apreensão. No interior da residência, agentes se depararam com uma porta blindada. 

Como Leonardo se negou a abri-la, foi preciso o uso da força, conforme contou à imprensa em entrevista coletiva o delegado que comandou a operação. Foram apreendidas duas barras de prata, que podem valer até R$ 23 mil, e uma quantia em moeda estrangeira entre R$ 110 mil e R$ 120 mil.

A polícia suspeita que o esquema possa ter desviado, pelo menos, R$ 2,7 milhões entre os anos de 2015 e 2019.  

Foi dormir derrotado, acordou reeleito

Pisei numa redação de jornal pela primeira vez em 2004, ainda como estagiário de jornalismo. Naquele ano, Romário se preparava para conquistar a sua primeira reeleição como presidente da Alepe. Disputou o voto dos colegas de Casa com outro nome do antigo PFL, Sebastião Rufino. As sessões ainda eram realizadas no plenário do Palácio Joaquim Nabuco.   

Na noite da véspera da eleição, Rufino reuniu um grupo de deputados apoiadores em sua casa. Listaram o nome dos parlamentares que hipotecaram apoio ao bate-chapa com Romário. Em seguida, brindaram e festejaram, pois a conta de padaria indicava que o presidente da Assembleia estava derrotado.

Naquele contexto, embora os dois candidatos fossem do mesmo partido, o PFL, uma derrota de Romário poderia ser também interpretada como uma revés do Palácio do Campo das Princesas. Portanto, parte da oposição a Jarbas fechou com Rufino.

Ao final da contagem dos votos, retirados um a um da urna de madeira, Romário se sagrou vitorioso. A votação foi secreta, como prevê o regumento interno.

Nos bastidores, correu a versão de que dois dos deputados de oposição que haviam garantido voto a Rufino capitularam à traição horas antes da eleição.

Nesse tipo de disputa, dois apoios convertidos significam uma diferença no placar de quatro votos (dois que o adversário deixa de ganhar com mais dois que o escolhido computa). 

Do TCE, Romário elege filho deputado

Romário virou conselheiro do Tribunal de Contas na vaga destinada à Assembleia em 2007, começo do governo Eduardo Campos, que indicou Marcos Loreto para a outra vaga aberta, esta de indicação do Executivo.

No ano anterior, Romário Dias teve a quarta maior votação para deputado estadual em Pernambuco, cerca de 60 mil votos, consequência do acúmulo de poder ao longo de seis anos como presidente da Alepe.

Na eleição de 2010, o lugar da família Dias na Alepe passou a ser  ocupado por Leonardo, que exerceu dois mandatos parlamentares pelo PSB. Atualmente, ele ocupava cargo na estrutura do governo Raquel Lyra (PSD). Foi exonerado no dia seguinte à operação da Polícia Civil.

Atualmente, Leonardo Dias está no Avante e Romário mantém sua filiação ao PL. Filho e pai não devem disputar eleição esse ano. Tendem a apoiar o irmão Waldemar e Sebastião Oliveira.