João Carvalho
Jornalista, especializado em cinema e audiovisual, mestrando em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco

A Assembleia Legislativa de Pernambuco mandou um recado público ruim. Ao aprovar o título de cidadão pernambucano para Frei Gilson, a Casa não homenageia apenas um religioso de grande alcance nas redes sociais. Coaduna também com um tipo de discurso que precisa ser colocado sob forte questionamento público. Um discurso que, em nome da fé, tem sido voltado a reforçar preconceitos contra mulheres, pessoas LGBTQIA+ e outras expressões religiosas.

É preciso destacar: ninguém está dizendo que um padre não pode pregar, cantar, reunir fiéis ou defender a tradição da igreja. Liberdade religiosa é um direito fundamental e precisa ser preservada. O problema começa quando essa liberdade passa a ser projetada para diminuir seres humanos, atacar diferenças, reforçar submissões e transformar a fé em ferramenta de guerra cultural.

A homenagem aprovada pela Alepe não caiu do céu. Ela chega poucos dias depois de Frei Gilson ter sido denunciado ao Ministério Público de São Paulo por causa do teor de suas falas contra pessoas LGBTQIA+ e mulheres. A denúncia não é condenação, obviamente. Mas é grave o bastante para exigir prudência e responsabilidade pública. 

Uma Assembleia Legislativa não é fã clube. Um título de cidadão é uma escolha política, institucional e simbólica. Quando o Parlamento concede uma honraria, ele diz à sociedade que aquela trajetória merece ser celebrada e representa valores que o Estado deseja reconhecer. Por isso, a decisão carrega um incômodo. 

Pernambuco é terra de luta popular, resistência democrática, cultura plural, religiosidade diversa, igrejas, terreiros, centros, romarias, procissões, maracatus, cocos, caboclinhos e tantas formas de viver o sagrado. Portanto, é um gesto de insensibilidade reduzir esse patrimônio a uma homenagem a alguém sobre quem recai acusações de intolerância e discursos excludentes.

O caso é grave, pois estamos falando de uma figura pública que é um fenômeno digital. Fala para milhões de pessoas. Reúne multidões. Tem a força da mobilização. 

Grandes poderes trazem consigo grandes responsabilidades. Quando alguém como Frei Gilson faz sermões que podem reforçar a ideia de que uma mulher nasceu para ocupar posição secundária, ou que uma pessoa LGBTQIA+ vive em desordem moral, o problema ganha outra dimensão. Vira autorização moral para o preconceito circular com aparência de piedade.

Aqui está o ponto central. Como lembra Talal Asad, antropólogo e uma das grandes referências nos estudos críticos da religião, discursos religiosos não são palavras ao vento. Quando partem de autoridades com grande alcance público, eles produzem efeitos, orientam comportamentos e podem legitimar exclusões.

A fé pode consolar e dar sentido à vida de muita gente. Mas também pode ser capturada por projetos de poder. Pode virar palanque político-eleitoral. Fundir-se em instrumento de controle dos corpos para a hostilidade contra quem ama diferente, reza diferente, vive diferente ou simplesmente não cabe no modelo moral de quem se julga dono da verdade.

Pernambuco sabe o peso da intolerância. Sabe o que significa ver religiões de matriz africana tratadas como ameaça. Sabe o que significa a violência simbólica contra terreiros, mães e pais de santo, povos tradicionais e comunidades que mantêm viva uma herança espiritual marcada pela ancestralidade.

Sabe também o quanto mulheres ainda são cobradas, vigiadas, julgadas e silenciadas em nome de uma moral que preserva privilégios masculinos e econômicos.

Uma Casa Legislativa não deve agir como se estivesse fora do seu tempo histórico. Aprovar uma honraria como essa ultrapassa o acordo de cavalheiros entre parlamentares que faz com que um deputado não se oponha à proposta de homenagem do colega.

É uma escolha de lado. E o lado escolhido parece ser o lado da popularidade fácil, do aplauso garantido, da aproximação com uma audiência religiosa numerosa e politicamente mobilizada. É o velho cálculo político-eleitoral. Quando alguém tem multidão, microfone e engajamento, muita gente prefere ignorar o que essa voz propaga.

Há quem diga que a homenagem reconhece apenas o trabalho espiritual de Frei Gilson. Esse argumento não se sustenta completamente, pois a vida pública não funciona por recorte promocional. Quando o Estado homenageia alguém, homenageia o conjunto da obra.

Quem fala para milhões precisa aceitar que suas palavras sejam examinadas com rigor. Pernambuco não precisa premiar discursos que podem ferir tanta gente. No fim, a pergunta é simples: que tipo de cidadania a Alepe está celebrando?