A governadora Raquel Lyra (PSD) disse ser a favor da redução da jornada de trabalho. Após uma semana, apareceu recebendo abraço da deputada federal Clarissa Tércio (PP), que votou no Congresso para esvaziar a PEC do fim da escala 6×1. Dias depois, Raquel nomeou a filha do casal Collins para suceder a mãe no comando da Arena Pernambuco.
O resgate acima é o exemplo mais recente da contradição política que circunda a imagem pública da governadora: nunca declarou apoio a Bolsonaro, mas está cercada e sustentada politicamente por uma base bolsonarista, em parte reacionária.
Aquela turma raiz, que comemora tentativa de golpe de estado e vai para frente de hospital tumultuar a realização de um procedimento de saúde previsto em lei numa adolescente vítima de violência sexual.
Foi isso que fez Clarissa Tércio!
Com a governadora estão também os deputados Mendonça Filho (PL) e Pastor Eurico (PSDB), os da Fonte, os Coelho…
É este o dilema de Raquel: está rodeada de bolsonaristas, mas sua reeleição passa – obrigatoriamente – por construir e ampliar o voto “Luquel”.
O eleitorado da extrema-direita é consolidado, mas insuficiente para garantir uma eleição ao governo de Pernambuco.
No segundo turno das eleições de 2022, contra Bolsonaro na máquina golpista, Lula obteve 67% dos votos válidos. Duas a cada três pessoas votaram no candidato do PT porque o lulismo é maior do que o petismo nos estados do Nordeste brasileiro.
O presidente nacional do PT, Edinho, na sua passagem pelo Recife, deixou aberta a porta do palanque duplo para Lula em Pernambuco. Mas Raquel não quis entrar, ou preferiu adiar a entrada.
Apurei que a expectativa é a de que a governadora declare apoio à reeleição do presidente Lula na convenção partidária do PSD, que ainda não tem data anunciada. A relação política e institucional que o estado teve com a União será um dos argumentos.
A estratégia de evitar se posicionar em relação à disputa presidencial deu certo em 2022. Mas o contexto era outro, Raquel não era governadora.
Para as eleições deste ano, seria uma espécie de suicídio político-eleitoral “ficar em cima do muro” numa eleição acirrada, contra um candidato forte que é aliado do presidente, como o ex-prefeito João Campos (PSB).
Comunicação não é aquilo que eu falo, mas – sim – aquilo que as pessoas compreendem do que é falado. Portanto, resta saber como Raquel vai administrar a atuação em dois mundos tão distintos: os que detestam Lula e os que desejam votar nele.
“Governar é também administrar contradições”, deve ter dito algum filósofo, em algum momento passado.
Acontece que o apoio de figuras como Túlio Gadelha, Jô Cavalcanti, João Paulo e Rosa Amorim pode não ser o suficiente para diluir a percepção do eleitorado lulista de que a governadora alimenta ou integra o bolsonarismo.

