João Carvalho
Jornalista e mestrando em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco

Frei Gilson, o religioso mais pop da atualidade, já não pode ser tratado apenas como um padre cantor que faz sucesso na internet. Ele virou um fenômeno de massa. Tem milhões de seguidores, faz transmissões para muita gente, lota eventos pelo Brasil e sabe usar as redes sociais como poucos. O problema é que, junto com oração, música e palavras de fé, o frade carmelita também espalha um discurso de medo, obediência e exclusão. 

Quando a fé é separada do caminho do acolhimento para virar ferramenta de controle, o assunto deixa de ser apenas religioso. Passa a ser político, social e democrático. Pois o frade pop foi alvo do Ministério Público de São Paulo (MPSP). A denúncia apresentada pelo ex-noviço, jornalista e escritor Brendo Silva coloca esse debate em outro nível.

Segundo a representação, Frei Gilson teria feito falas discriminatórias contra pessoas LGBT+ e mulheres em homilias, entrevistas e redes sociais. A denúncia ainda depende de análise do Ministério Público de São Paulo. Mas o caso é sério e precisa ser acompanhado. Liberdade religiosa não pode servir de pretexto para diminuir seres humanos. Esse é o ponto principal. 

Ninguém está dizendo que a Igreja não pode falar de sua doutrina. A questão é outra. Quando um líder religioso fala para milhões de pessoas e transforma mulheres, pessoas LGBT+ e adversários políticos em sinônimos de destruição moral, ele não está apenas pregando. Está criando inimigos, inimigos para serem perseguidos. 

O frade carmelita sabe fazer isso bem. Nas redes sociais, suas falas circulam em vídeos curtos, frases fortes e trechos emocionais. Um sermão vira postagem viral. O passo a passo é simples. Primeiro vem uma fala pesada. Depois, a reação. Em seguida, seus seguidores dizem que ele está sendo atacado por defender Deus. Assim, cada denúncia vira combustível para aumentar ainda mais sua força.

Esse jogo é poderoso porque a fé mexe com uma parte muito sensível da vida humana. Paul Tillich, no livro Dinâmica da Fé, dizia que a fé toca aquilo que ocupa o centro mais profundo da existência, aquilo que ele chama de “preocupação última”. Por isso, quando um líder religioso usa a fé para criar medo, culpa e obediência, ele não está lidando apenas com opinião. Está mexendo com esperança, salvação, família, pecado, vergonha e sentido de vida. Nas mãos certas, isso pode consolar. Nas erradas, pode manipular.

E o que se vê no caso de Frei Gilson é justamente essa mistura perigosa. Ele fala de família, oração, vícios, disciplina e cuidado com os filhos. Muita gente escuta porque são assuntos reais da vida cotidiana. Mas, no meio desses conselhos, entram ideias autoritárias, a noção de que o homem deve mandar. Entra a ideia de que a mulher nasceu para servir ao homem. Entra a condenação pública de pessoas LGBT+. Entra a velha história de que o país está sendo destruído por inimigos morais.

O preconceito, nesse caso, vem acompanhado de música, lágrimas, oração, multidão e aparência de cuidado espiritual. Essa é a força da manipulação. O discurso surge como conselho, não como agressão. No fim, o resultado é o mesmo. Pessoas são diminuídas. Grupos inteiros são tratados como ameaça e submetidos a riscos e perigos, pois o “outro” é também inimigo de Deus.

Esse jeito de falar combina muito com a extrema direita brasileira. Não é apenas conservadorismo religioso. É uma visão autoritária e fechada da sociedade. Uma visão que gosta de ordem, obediência, disciplina, inimigo interno e guerra cultural. Uma visão que diz proteger a família, mas ataca vários modelos de família. 

É aí que o discurso começa a lembrar práticas fascistas. Não porque todo conservador seja fascista. Não porque toda religião tradicional seja autoritária. Mas porque aparecem sinais conhecidos desse tipo de política. A criação de inimigos, a divisão entre bons e maus, a obsessão por pureza moral, a mobilização das massas pelo medo e a promessa de restaurar uma ordem perdida. O palco pode ser um estádio. A trilha pode ser música religiosa. A roupa pode ser batina. Mas o jogo político está ali.

O religioso não precisa pedir voto para fazer política. Ele prepara o terreno. Ele diz quem presta e quem não presta. Ele aponta quem ameaça a família, a fé e o Brasil. Depois, quando chega a eleição, a cabeça de muita gente já foi treinada para enxergar a política como uma batalha entre Deus e seus inimigos. A urna aparece no fim, mas o voto começa a ser construído muito antes.

Esse modo de agir aparece com clareza na trajetória pública do frade carmelita. Ele cresce nas redes no mesmo período em que o bolsonarismo ganha força no país. O discurso contra o comunismo, a defesa de um único formato de família, os ataques a pautas LGBT+ e feministas, e a ideia de que há inimigos morais destruindo o Brasil conversam diretamente com a linguagem da extrema direita. 

O problema é o uso público e repetido dessa doutrina para marcar pessoas como inferiores, perigosas ou desviadas. E aqui aparece a contradição mais profunda. Esse tipo de pregação bate de frente com o próprio cristianismo. Jesus não construiu sua mensagem humilhando os mais frágeis. Ele se aproximou dos pobres, dos doentes, das mulheres rejeitadas, dos pecadores públicos, dos estrangeiros e de todos aqueles que a sociedade deixava de lado. 

O Evangelho não nasceu para separar pessoas entre superiores e inferiores. Nasceu para levantar quem estava caído. O Evangelho não combina com humilhação. Não combina com medo. Não combina com massa enfurecida. Não combina com transformar seres humanos em alvos.

A denúncia ao Ministério Público precisa ser acompanhada com seriedade. Cabe às autoridades avaliar se houve ou não prática discriminatória por parte do Frei Gilson. Mas a sociedade não precisa ficar calada enquanto espera o andamento jurídico. Quem pensa diferente não é inimigo de Deus. E nenhum púlpito, palco, canal no YouTube ou estádio lotado deveria funcionar como licença para atacar a dignidade humana.

O caso Frei Gilson revela algo maior do que um padre polêmico. Mostra uma nova forma de poder religioso no Brasil, feita de algoritmos e guerra cultural. É um poder que não se apresenta como partido, mas atua politicamente. Não se apresenta como violência, mas produz exclusão. 

Denunciar esse processo é defender pessoas. É lembrar que fé sem compaixão é obra morta. É dizer que religião sem amor ao próximo vira palanque. E é também proteger o próprio cristianismo daqueles que usam a cruz como bandeira de guerra, enquanto esquecem que o centro do Evangelho nunca foi esmagar o outro, mas sim acolher, cuidar e libertar.