A maior força política em Pernambuco hoje é o lulismo, o universo de pessoas dispostas a votar no presidente e em quem estiver com ele. E foi ele, o “Fator Lula”, o vetor de força que influenciou a formação da chapa ao Senado do prefeito João Campos (PSB) e, por consequência, parte da chapa da governadora Raquel Lyra (PSD).

João reuniu o maior número de pré-candidatos e, portanto, precisava desacolher aliados. O prefeito, que em 2024 montou sua chapa como quis, mirou de novo no melhor dos dois mundos: ter a simbologia afetiva de Lula por meio do espaço ao PT de Humberto Costa e a estrutura política, o tempo de TV e fundo eleitoral em Pernambuco da família da Fonte e o PP.

Eduardo da Fonte, o político com maior espaço na estrutura estatal do governo Raquel, saltou então à frente dos pré-candidatos aliados de João e sentou-se na janela do ônibus com destino às Eleições 2026, ao lado de Humberto, que ficou no corredor. 

Eduardo da Fonte é aquele amigo da onça com cara de inocente: se vacilar, ele te passa para trás.

Já Humberto fez a gentileza de deixar Dudu sentar à janela por que ele, Humberto, tinha interesse em ser o único candidato da chapa de João realmente ligado de forma simbólica e emocional ao “Fator Lula”.

Para Humberto, isso também seria o melhor dos dois mundos. Muito ruim a hipótese de disputar protagonismo e voto com Marília, que é Arraes e também Lula, sem dialogar com segmentos mais ao centro.

Marília, então, dobrou a aposta e se movimentou em várias direções: mudança de partido, pacto de atuação conjunta com Silvinho e aceno a Raquel. 

Marília fez o que fez porque sabia que, além da boa condição nas pesquisas de intenção de voto, tinha na manga a carta super trunfo: o “Fator Lula”.

Marília com Raquel significaria pôr na rua a tese ambígua de que em Pernambuco Lula tem dois palanques, tal qual em 2006.

Marília e Silvinho, ministro de Lula, com Raquel significaria legitimar de vez essa tese. 

A pessoas com quem ela conversou dias antes, garantiu que estava de malas prontas para o palanque da governadora. Se a jogada ameaçadora não desse certo, talvez ela fosse mesmo para Raquel.

A governadora tem crescido de forma consistente nas pesquisas. No frigir dos ovos, João não poderia correr esse risco.

Marília, para mim, foi quem melhor se movimentou nos momentos que precederam a formação da chapa majoritária do prefeito. Estava de fora da disputa pelo Senado, passou a estar dentro. Mas isso é assunto para outro texto…

Silvinho era o pré-candidato mais frágil. Deu o pulo do gato de fechar atuação conjunta com Marília, para afastar de vez Eduardo da Fonte e Miguel Coelho.

Silvio Filho mirou no Senado, garantiu a vice para seu irmão. Está em boa condição para a reeleição a deputado federal e tem uma das coisas mais importantes na política e na vida: tempo!

“Fator Lula” empurra os Coelho para o outro lado

A família do ex-senador Fernando Bezerra Coelho tem estrutura no Sertão de Pernambuco, histórico de quase 100 anos na política (isso também é assunto para outro texto) e, o mais importante, voto confirmado na urna.

Miguel Coelho teve 18% da votação válida no 1ª turno ao governo em 2022. É muita coisa! 

Tanto é que a família Coelho passou a ocupar a estrutura da Secretaria de Turismo da gestão João Campos e suas possibilidades numa cidade como o Recife. E, mesmo assim, acabou empurrada pelo “Fator Lula” para fora do palanque onde queria estar.

Teve a Operação da Polícia Federal, é verdade, mas a maior vulnerabilidade da família Coelho é a sua identificação com o bolsonarismo. 

Bezerra Coelho foi o líder do governo Bolsonaro no Senado. O resgate da atuação do então senador na CPI da Covid tem potencial para acabar com qualquer pretensão majoritária num estado como Pernambuco.

Bezerra Coelho e Bolsonaro estiveram juntos durante a pandemia

A família Coelho comandou a Codevasf e ajudou a dar vida ao Frankenstein do Orçamento Secreto, ajudando a distorcer o modelo da tripartição dos Poderes: o Legislativo passou a executar – como quis – parte expressiva do dinheiro público, sem precisar ter que vencer eleição majoritária.

Foi no chorume da composição desse arranjo político de afronta aos princípios constitucionais que a PF mirou para agir.

Bezerra Coelho, não custa nada lembrar, foi ministro de Lula, ministro de Dilma (depois a favor do impeachment de Dilma), fez o filho ministro de Temer e espalhou-se ainda mais no governo Bolsonaro.

Antes disso tudo, Bezerra Coelho foi articulador político da campanha a governador de Eduardo Campos em 2006 e, depois, o secretário que geriu Suape.

Este tem intimidade com o poder, precisamos combinar!

Palanque de João aproxima Raquel da ala conservadora 

Considero que a formatação final da chapa majoritária de João Campos ao governo acabou sendo uma boa opção dentre as possibilidades. Há o desafio de falar com quem não é lulista ou “progressista”, mas acaba sendo um bom arranjo. O palanque ideal, com Dudu da Fonte, não coube na realidade.

Lula teve 67% dos votos válidos em Pernambuco no 2º turno de 2022, com Bolsonaro na Presidência da República e com todas aquelas artimanhas em jogo (PRF nas estradas e tentativa de golpe em curso).

Garantir um palanque fortemente identificado ao “Fator Lula” não é tudo, mas é muita coisa em uma eleição estadual em Pernambuco.

Na outra ponta, a chapa de João empurra a governadora para perto da ala mais conservadora, que – em parte – é reacionária.

Não considero a governadora bolsonarista ou reacionária, longe disso. Mas acredito que é este o resultado que o “Fator Lula” provoca no tabuleiro de 2026, segundo a aplicação na política da terceira Lei de Newton: toda força sobre um corpo gera uma força de mesma intensidade e direção, mas de sentido contrário.

Desafio é repetir 2022 e fisgar parte de quem vota Lula

À governadora, fica a tarefa de repetir o feito da eleição de 2022, quando conseguiu conquistar o voto de parte do eleitorado simpático a Lula. Raquel teve 69% dos válidos sobre Marília no 2º turno. Excelente desempenho. Dois pontos percentuais a mais do que o próprio Lula conseguiu naquela votação.

Em tempo: sou daqueles que têm dúvida se a morte precoce do marido de Raquel foi determinante para garanti-la no 2º turno.

Para conquistar o voto de parte das pessoas que estão dispostas a votar em Lula, a governadora vai apresentar as parcerias que o Estado e a União executaram ao longo desses quatro anos. Vai também comparar sua gestão com os oito anos do PB com Paulo Câmara governador.

Raquel já mostrou que tem qualidades, é forte, determinada. Portanto, o jogo será jogado até outubro.

Raquel Lyra, Lula e a excelente relação institucional em quatro anos