No vídeo sobre a realização de evento pago no Parque da Jaqueira desde a concessão do espaço público a um ente privado, falei que estava em curso um processo de “gentrificação” e algumas pessoas acharam exagerado da minha parte. Justificaram que os portões iriam permanecer abertos ao público, e que o evento aconteceria em um ponto específico do parque. A crítica, portanto, era injusta e desmedida.

Daí que fui neste sábado (28) ao Parque da Jaqueira, na zona norte do Recife, como de vez em quando faço aos fins de semana. Dessa vez, eu tinha uma motivação a mais: o dever profissional. Acabei assumindo o compromisso de ver de perto como se daria a realização desse evento, já que o mencionei em vídeo.

Logo de cara, um fato – ou melhor, um ruído – chamou a minha atenção. A estrutura de som montada era potente e os demais frequentadores do parque tiveram que escutar em bons decibéis a programação musical do evento.

Poluição sonora em um ambiente como um parque não é pouca coisa! 

Pela quantidade de pessoas que o evento reuniu, o volume do som poderia ter sido mais baixo, em convivência harmoniosa com o todo. Mas, no modelo de negócio de concessão, funciona assim: quem paga quer ser visto. Ou ouvido.

A alguns metros dali, outro evento – esse realizado por uma academia – acontecia, embora com uma estrutura de som menos potente. Resultado: uma prática coletiva foi “invadida” pelo barulho da outra prática coletiva.

Quem frequenta o Parque da Jaqueira com assiduidade já deve ter notado uma turma jovem que se reúne para ensaios de dança. O espaço é sempre aquele coberto, anexo ao círculo azul. Uma juventude tanto do que é chamado brega funk quanto da cultura K-pop.

Essa turma nem teve como “competir”. A caixa de som, mais simples, não conseguia se fazer ouvir. O jeito foi desligar o aparelho para ensaiar assim mesmo, sem música. No modelo de negócio de concessão, funciona assim: quem paga acaba tendo prevalência sobre quem não paga.

Na concessão pública, o patrimônio permanece público, pertencente ao município, estado ou à União. Mas o bem passa a ser tratado como um ativo, a partir das diretrizes da iniciativa privada e seu “modelo de negócio”. No caso do Parque da Jaqueira, o consumo e a propaganda. 

Não à toa, os parques do Recife repassados à iniciativa privada já ostentam propaganda de uma casa de jogos de azar on-line, mesmo sendo espaços frequentados por crianças e jovens.

Além da Jaqueira, os parques de Apipucos e Santana, também na zona norte, e o Dona Lindu, na zona sul da cidade, estão cedidos pelos próximos 29 anos à gestão da empresa Viva Parques, que venceu o leilão e, por isso, agora pode definir e reservar espaços e horários para uso exclusivo de parceiros.

É no “alto consumo” onde mora a gentrificação

Recife sempre foi uma cidade assimétrica e desigual, de adensamentos populacionais em áreas alagáveis ou de morros e encostas, distantes ou dissociadas das “zonas de urbanidade”, onde mora também a tão sonhada qualidade de vida, como morar perto da escola dos filhos e ir a pé ou de bicicleta ao trabalho.

O que hoje é conhecido por racismo estrutural é parte inseparável da formação social e política do Recife tal qual o conhecemos. Nos últimos 15 anos, o debate sobre o direito à cidade ganhou novo fôlego, quando o conceito de gentrificação voltou a circular. 

De acordo com a etimologia, gentrificar significa fazer com que algo ou alguém volte a possuir uma condição nobre. Por sua vez, a nobreza reside no fato de que ela é para poucos. O que pode ser para todas as pessoas deixa de ter valor, perde o charme. Ao menos nas tratativas comerciais.

A gentrificação não acontece apenas por meio do despejo. Ela requer a força, não necessariamente a violência. A força política e econômica, sobretudo. Portanto, pode se constituir por meio de movimentos mais sutis.

A questão não é a concessão em si, mas seu formato

Acompanho de maneira ressabiada esse processo pelo qual passa o Recife atualmente, tendo também toda a extensão de orla de praia e uma parte considerável do bairro de Santo Antônio (14 hectares), área central da cidade, colocados sob concessão do ente privado.

Não é uma questão de ser, por princípio, contra a concessão enquanto decisão governamental. Mas, sim, a favor de um melhor debate sobre o formato deste modelo. No caso dos parques, para uma cidade que nunca vivenciou esse tipo de coisa, 30 anos de vigência de contrato me parece tempo demais. Soa-me imprudente, até.

Poderiam ser 10 ou 15 anos, quando a cidade teria a chance de avaliar a experiência e decidir por renová-la ou não.

Nesse processo, tem faltado também participação popular. Reportagem da jornalista Maria Carolina Santos publicada na Marco Zero mostrou que a audiência para a prefeitura responder a questionamento sobre o tal Distrito Guararapes durou menos de 10 minutos. 

Em 10 minutos, se faz um macarrão instantâneo, não um debate sobre a cidade.