Articulado, leitor voraz e autodidata são algumas das qualidades atribuídas ao recifense Raul Jungmann por pessoas que desfrutaram da sua intimidade. O ex-ministro que faleceu neste domingo (18), aos 73 anos, adquiriu experiência e construiu uma longa carreira na política. Ocupou o primeiro cargo público no início da década de 1990, como indicação “à esquerda” de Fernando Lyra ao então governador Carlos Wilson.

Naquele ano, Miguel Arraes se desincompatibilizou do cargo de governador por força da legislação eleitoral, para ser candidato a deputado federal, possibilitando que Cali – como Carlos Wilson era chamado – assumisse o comando do Estado. 

Para suceder Arraes, o novo governador precisava montar um secretariado que tivesse componentes de esquerda. Foi isto que possibilitou que Lyra indicasse Jungmann a Cali. “Tem um cara muito bom, você precisa conhecer”. 

Com o convite aceito, o jovem Jungmann, naquele momento filiado ao MDB depois de ter feito parte do PCB, o “Partidão”, e da campanha das Diretas Já, deixava a atuação na sociedade civil para ser secretário de Planejamento do governo de Pernambuco. 

As obrigações do novo cargo fizeram com que Jungmann participasse, vez ou outra, de reuniões em Brasília. Foi lá que ele conheceu e caiu nas graças da socióloga e política Aspásia Camargo, então presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Foi por indicação dela que Jungmann “nacionalizou” sua atuação política, quando passou a ocupar uma secretaria executiva no Ministério do Planejamento do governo Itamar Franco.

De lá, foi para a presidência do Ibama quando outro pernambucano – o ex-governador Gustavo Krause – era o ministro da área. Mas foi Aspásio, novamente, e não Krause, a fiadora da escolha.

Eldorado dos Carajás, a primeira grande crise

O massacre de 21 agricultores do MST, em 17 de abril de 1996, chocou o Brasil e se transformou numa tremenda crise para o governo FHC. O então presidente decidiu nomear Jungmann ministro extraordinário de Política Fundiária, ligado diretamente ao gabinete presidencial. 

O cargo, depois, foi transformado em Ministério do Desenvolvimento Agrário, tendo Jungmann à frente até 2002, ano em que Lula foi eleito presidente pela primeira vez.

“Pense grande, vote Raul Jungmann”

Foi numa reunião de “chuva de ideias” que surgiu o slogan que acompanharia Jungmann nas eleições que disputou no Recife e em Pernambuco. E o autor da ideia foi o próprio candidato. Quem relembra o episódio ao Política com Opinião é o jornalista Rossini Barreira, amigo de Jungmann.

“Era uma forma de dizer que ele queria debater as questões nacionais, as grandes causas”.

Rossini Barreira e Jungmann eram amigos

A relação de Rossini e Jungmann se estreitou a ponto do primeiro convidar o segundo para padrinho de casamento. Um fato político nacional, porém, impossibilitou que Jungmann estivesse presente à cerimônia: a entrada do MST na fazenda de FHC em Minas Gerais, fato tratado como “invasão” pela imprensa à época.

Articulado, mas não um campeão de votos

Jungmann construiu relações com nomes da série A da política brasileira, como Michel Temer, Aécio Neves, José Genoino e José Eduardo Cardozo. Mas nunca foi um “puxador de votos”, como se diz no jargão da política.

Em 2002 se elege deputado federal pela primeira vez. Em 2010, com o fim do mandato na Câmara, Jungmann concorreu – sem sucesso – ao Senado. Acabou ficando na planície.

Dois anos depois, tomou a decisão de voltar ao jogo por baixo, pela menor das casas legislativas: a Câmara Municipal do Recife. Foi eleito com quase 12 mil votos. Depois, retornou à Câmara dos Deputados em 2015 como suplente.

A favor do impeachment de Dilma e ministro de Temer

Como deputado, o recifense foi o vice-presidente da CPI dos Sanguessugas. Mais tarde, defendeu a deposição da presidente Dilma Rousseff. Com Temer na Presidência, ele voltou ao alto escalão da política nacional como ministro da Defesa e, em seguida, da Segurança Pública. 

A BBC News Brasil chegou a publicar uma matéria intitulada “No lugar certo quando tudo dá errado: quem é Raul Jungmann, homem de Temer para a segurança pública”.

Aos olhos de hoje, Raul Jungmann seguiu um caminho comum a alguns políticos da sua geração: começou a carreira pela esquerda e, ao longo do tempo, foi se deslocando no espectro ideológico em direção à outra ponta.

Na juventude, quando cursou Psicologia na Universidade Católica, graduação que não concluiu, Jungmann coordenou um grupo de estudo marxista. Ao final da vida pública, figurava como um dos principais interlocutores do então presidente Michel Temer.