O Governo de Pernambuco está, neste momento, virando as costas para uma das mais importantes escolas médicas do Brasil. A decisão de suspender a alimentação gratuita dos estudantes em internato no Complexo Hospitalar da Universidade de Pernambuco não é um detalhe administrativo, nem um ajuste técnico. É um gesto de abandono institucional.
A Faculdade de Ciências Médicas da UPE forma, há décadas, médicos que sustentam o próprio sistema público de saúde do Estado. São profissionais que hoje atuam no SUS, nas emergências, nos ambulatórios, nas UTIs, muitas vezes nos contextos mais precários.
Ignorar os estudantes que estão na fase final de formação é comprometer as trajetórias individuais e a qualidade futura da assistência à população pernambucana.
O internato médico é uma etapa decisiva e extenuante. São jornadas que chegam a 40 horas semanais, em regime de estágio curricular obrigatório e não remunerado, com responsabilidade direta sobre o cuidado de pacientes.
Ainda assim, o governo do Estado decidiu retirar o último ponto de acesso à alimentação gratuita dentro do Complexo Hospitalar da UPE, aprofundando uma situação concreta de insegurança alimentar entre os estudantes.

Essa medida aprofunda para os estudantes uma política de anos de cortes de gastos no orçamento público destinado a uma universidade que sequer tem restaurante universitário para seus estudantes. Não se trata de privilégio. Trata-se de condição mínima de permanência.
No Recife, exigir que estudantes banquem diariamente refeições com valores incompatíveis com sua realidade financeira é impor uma barreira silenciosa à formação médica. É transformar o internato em um filtro socioeconômico, onde só permanecem aqueles que podem pagar.
Mais grave ainda é a forma como essa decisão foi tomada: de maneira unilateral, sem diálogo com a representação estudantil, sem transparência e sem construção coletiva de alternativas.
O movimento estudantil não foi chamado a discutir dificuldades orçamentárias nem a pensar soluções transitórias. Foi simplesmente comunicado do corte.
Os próprios números desmontam o argumento da necessidade financeira. A economia gerada com a retirada da alimentação dos internos representa uma fração irrisória do orçamento da unidade hospitalar. Em termos práticos, o impacto fiscal é mínimo; o impacto humano, formativo e simbólico, é enorme.
O que está em jogo não é apenas um almoço. É a compreensão sobre o papel da universidade pública e do hospital universitário. É a escolha entre investir na formação de profissionais de saúde ou precariedade. É decidir se o Estado reconhece seus estudantes como parte do sistema ou se os trata como custo descartável.
Ao ignorar as reivindicações dos internos da UPE, o Governo de Pernambuco sinaliza desinteresse pelo futuro da medicina pública no Estado. Desconsidera estudantes que já sustentam, na prática, o funcionamento cotidiano dos serviços de saúde. E normaliza a ideia de que a formação médica pode acontecer sem condições mínimas de dignidade.
A paralisação estudantil que se inicia nesta sexta (30) não é um ato irresponsável. É uma resposta extrema a uma decisão extrema. É um pedido de escuta, de diálogo e de responsabilidade. Enquanto isso não acontece, o Estado segue acumulando uma dívida que não é apenas orçamentária, mas ética, social e política.
Por Arthur Godê, coordenador-geral do Diretório Acadêmico de Medicina Josué de Castro


