Jornal de maior referência da imprensa norte-americana, o The New York Times classificou como “ilegal” e “imprudente” a operação militar ordendada por Donald Trump na Venezuela para capturar o ditador-presidente Nicolás Maduro, com o objetivo declarado de obter o controle da reservas de petróleo. 

Enquanto isso, os principais jornais da mídia corporativa brasileira preferiram dar ao episódio interpretação mais simplória, que variou da descrição fria à leitura no estilo “bem contra o mal”, ignorando nas manchetes de capa a complexidade deste fato que tem potencial de aprofundar a instabilidade na América Latina e provocar ruídos no processo eleitoral do Brasil desse ano. 

Maduro é, sim, um ditador. As eleições de maio de 2025 na Venezuela não foram confiáveis. Tanto é que o governo brasileiro não reconheceu a vitória dele. Mas o que está em jogo não é o estado de bem-estar social do povo venezuelano, nem a retomada das instituições do país vizinho nosso.

É o petróleo, estúpido!

Parafraseando o lema da campanha presidencial de Bill Clinton em 1992 (é a economia, estúpido), ao destacar a importância que o bolso dos eleitores tem na escolha do voto, esta análise precisa estar presente na leitura dos fatos. Senão como certeza, como dúvida ou desconfiança.

Aperto de mão e sorrisos entre Donald Trump e príncipe saudita

A Venezuela tem a maior reserva de petróleo do mundo, superior à da Arábia Saudita, que também exerce um governo ditatorial. Lá é uma monarquia absoluta. A família real Al Saud governa o país desde a sua fundação, há quase 100 anos, e tem o presidente e o governo norte-americano como aliados.

Voltemos à análise das manchetes dos jornais. 

No eixo Rio-São Paulo, O Globo e a Folha de S.Paulo foram às ruas bem parecidos. “Estados Unidos atacam Venezuela e depõem Nicolás Maduro”, disse o Globo. Já a Folha de S.Paulo publicou “Estados Unidos atacam Venezuela e capturam Maduro”.

O Globo diz que Maduro foi deposto, quando foi também preso

Os dois maiores jornais do Brasil classificaram o episódio como “ataque”, sendo O Globo mais impreciso. Depor significa destituir alguém de um cargo ou pôr algum objeto em um depósito. O que é diferente de manter alguém aprisionado por tempo incerto e em local desconhecido. Também podemos denominar isso de “sequestro”, mesmo que seja de um ditador.

A grande mídia se negou a usar esse termo, nem como sinônimo para evitar a repetição de palavras. Preferiram “captura”.

Não que esteja semanticamente errado. Arrisco a dizer que é porque sequestro soa cruel, enquanto captura empresta um ar, digamos, técnico e legal ao ato de sequestrar alguém.

Estadão reforça o chamado à ação de Trump, tom triunfal

Já o Estado de S.Paulo deu um passo à frente de seus concorrentes na narrativa pró-Trump. “Estados Unidos atacam Venezuela e capturam Maduro; Trump: ‘vamos governar’. O jornal também escondeu em sua capa o posicionamento do governo brasileiro. Ao final do texto de 29 linhas, mencionou: “o presidente Lula afirmou que uma linha inaceitável foi ultrapassada”, quando – na verdade – falou mais do que isso.

Vale destacar aqui o posicionamento, no tom e conteúdo, do governo brasileiro, por meio da nota assinada pelo presidente Lula.

Na versão digital, o Jornal do Commercio bradou: “ditador Nicolás Maduro é capturado pelos EUA”. A manchete mais panfletária das edições de domingo analisadas aqui. Por conta do tom adotado e da ausência de qualquer problematização. Classificar Maduro como ditador – o que é fato – é insuficiente para entender e interpretar este capítulo da política mundial.

Não analisei aqui as edições do Diario e da Folha de Pernambuco porque estes circulam no fim de semana edição impressa fechada anteriormente à invasão dos EUA à Venezuela.

Por último, o Correio Braziliense. A melhor manchete de todas: “Trump prende Maduro e diz que controlará a Venezuela”.

Correio põe o dedo na ferida: Trump prendeu para controlar

O jornal conseguiu descrever e também interpretar bem o fato ao listar Trump ao lado de Maduro. Acertou também na escolha do verbo. Controlar, neste caso, aponta para o interesse no petróleo, conforme o próprio Trump disse no pronunciamento que deu.

– “Ah, Jorge, e se fosse você, que manchete escreveria?

POR PETRÓLEO, TRUMP INVADE VENEZUELA E SEQUESTRA MADURO