A cena parece saída de um tempo que a humanidade já deveria ter deixado no passado. Lembra aqueles episódios de “queimar bruxas” ou, mais perto de nós, os casos em que pastores chutam imagens de santos católicos e terreiros são invadidos e destruídos por intolerância e racismo religioso. Só que agora tem um detalhe que deixa tudo ainda mais grave: quem protagonizou a ação foram agentes do Estado. Policiais armados, dentro de uma escola, intimidando professores por causa de um desenho de Iansã feito por uma criança.

Foi isso que aconteceu na Emei Antônio Bento, no Butantã, em São Paulo. Uma funcionária da escola afirma que 12 policiais militares armados, incluindo um agente portando metralhadora, circularam pela unidade após o pai de uma aluna, também PM, reclamar a colegas que a filha estaria sendo “obrigada a ter aula de religião africana”, por conta de um simples desenho com o nome “Iansã”. Não havia crime, não havia ameaça, não havia nada além de uma atividade pedagógica que trabalha identidade cultural e diversidade.

Ainda assim, a escola foi tomada por uma ação policial desproporcional, completamente fora de qualquer necessidade. Uma atitude inaceitável para a situação real que existia ali. Uma operação desse tamanho, com armas pesadas e doze agentes circulando entre crianças, jamais deveria ter sido acionada por ação individual de um colega de farda.

A primeira pergunta é: como foi possível transformar um desenho infantil em caso de polícia?

No dia anterior, o mesmo pai já havia ido à escola reclamar, retirado o desenho do mural e se comportado de forma agressiva. Voltou no dia seguinte, agora escoltado por colegas policiais, como se a escola fosse um território inimigo. Quem realmente criou uma situação de violência ali não foram os professores, nem a criança, nem o desenho. Foi o próprio pai que, inclusive, agora responde a um boletim de ocorrência registrado pela professora por ameaça.

É impressionante perceber como tudo aquilo que deveria ter sido observado antes de uma resposta policial simplesmente foi ignorado. Ignoraram a natureza educativa da atividade. Ignoraram a autonomia pedagógica da escola. Ignoraram o ambiente escolar, que deveria ser protegido, tratado com respeito, e não como suspeito. Ignoraram as crianças. E ignoraram o fato básico de que um trabalho artístico não é doutrinação.

O antropólogo e filósofo Carlos Alberto Steil descreve o Brasil como um “campo religioso em movimento”, onde diferentes tradições circulam, disputam sentidos e convivem no cotidiano. Esse conceito ajuda a entender o que ocorreu no Butantã. Um simples desenho infantil, que faz parte da diversidade religiosa presente no dia a dia do país, foi lido como uma ameaça. Não porque houvesse risco, mas porque expressões afro-brasileiras continuam sendo vistas com desconfiança em muitos espaços sociais. Em vez de reconhecer essa diversidade como parte do painel cultural brasileiro, optaram pelo medo e a intimidação.

Em algum momento, como sociedade, vamos ter de reconhecer que esse impulso de reagir com agressividade antes de ouvir e dialogar já não cabe mais no mundo em que vivemos. O Brasil não suporta mais tanta intolerância, seja de raça, de credo, de cor ou de qualquer outra diferença. Precisamos parar de alimentar discursos que separam, que criam abismos, quando o que nos faria avançar são pontes.

É exatamente isso que faltou nesse caso. Compreensão, escuta e a capacidade de enxergar o outro sem transformá-lo em ameaça. Pelo pai e pelo Estado, representado ali pela Polícia Militar.

A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo reforçou que a atividade fazia parte de uma produção coletiva e foi explicada ao pai. O Sindicato dos Profissionais de Educação afirmou que houve intimidação e abalo emocional. A Polícia Militar diz ter aberto uma apuração e vai analisar as câmeras corporais. Parlamentares acionaram o Ministério da Igualdade Racial. Toda essa mobilização porque um desenho infantil virou motivo para uma operação armada.

O episódio mostra como a escola, cada vez mais, tem se tornado alvo de desconfiança e ataques, especialmente quando lida com temas ligados à diversidade e à cultura brasileira. Professores vêm sendo tratados como inimigos, e qualquer atividade que não se encaixe em certas expectativas vira motivo para violência.

O mais grave é que, naquele dia, o medo entrou pela porta da escola com farda e arma. É simbólico e assustador. A escola, o espaço do diálogo, do conhecimento, do combate à ignorância, virou cenário de intimidação.

O que aconteceu no Butantã não pode ser normalizado. É preciso apurar, responsabilizar e, mais importante, preparar as forças de segurança para que saibam diferenciar um crime de uma atividade educativa. O Estado não pode repetir comportamentos de perseguição religiosa, nem permitir que intolerância guie ações policiais.

Se deixarmos isso passar, abrimos a porta para que episódios assim se repitam. E esse é um túnel para o passado ao qual o Brasil não pode mais retornar.

João Carvalho
Jornalista e mestrando em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco